terça-feira, 28 de agosto de 2007

A Amante de Hitler

O Maior Segredo do III Reich
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A mais completa biografia de Eva Braun, amante de Hitler durante 14 anos, revela segredos do homem que havia por trás do Führer alemão.
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As mulheres da vida de Adolf Hitler deixaram marcas profundas em sua personalidade. Klara, sua mãe, morreu quando o futuro ditador tinha 18 anos. Mas as lembranças do sofrimento causado por um câncer de mama permaneceram vivas. Geli, filha de uma meia-irmã de Hitler, tornou-se sua amante ainda na adolescência. Seu suposto suicídio, em 1931, deixou cicatrizes dolorosas no já presidente do Partido Nazista. E ainda havia a massa de milhões de alemãs. De certo modo, o tirano casou-se com todas elas. Desde sua ascensão ao poder, ainda nos anos 1930, mulher alguma poderia ser vista a seu lado. Um jogo de sedução intenso e muito bem arquitetado. "O Führer é incapaz de amar qualquer mulher. Ele pode amar apenas a Alemanha", dizia Magda, mulher do ministro da Propaganda Josef Goebbels e "primeira-dama do nazismo", ela mesma uma confessa apaixonada por seu líder. Traições nunca poderiam vir à tona. Mas havia Eva.
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"A História Perdida de Eva Braun", livro recém-lançado pela Editora Globo, resgata como nenhum outro a trajetória da amante quase secreta de Hitler. Escrito pela britânica Angela Lambert, autora de cinco romances e outras duas obras de não-ficção, ele reconstrói a história de Eva Anna Paula Braun a partir da vida de seus avós, descrevendo a sociedade alemã desde o fim do século 19. Assim como em "A Queda!", filme de 2004 acusado por alguns de "humanizar" a figura de Hitler, o livro revela detalhes surpreendentes da vida íntima do Führer. Em ambos, o maior assassino do século 20 quase pode ser visto como um homem comum.

A história de Eva e Adolf sempre foi considerada um exemplo de relacionamento entre um homem dominador e uma mulher alienada, a típica "loura burra" - algo verdadeiro, diga-se. Mas, como o livro de Lambert revela, há muito mais debaixo desse verniz. "Por trás da garota exibida que corria atrás de atenção e aplauso, havia alguém menos óbvio e mais interessante", escreve a autora. Eva Braun é vista em todas as nuances de sua personalidade, e não apenas em seu lado fútil, da mulher que só se preocupava com vestidos e festas. Se politicamente sua importância foi nula, seu papel na vida pessoal do ditador formou as bases para que o Führer desfrutasse de uma atmosfera caseira e familiar, de onde pudesse comandar seu séquito movido a ódio e pressupostos de superioridade racial. Trancada nos Alpes, em sua "gaiola de ouro" - como ela mesma dizia -, Eva era o porto seguro no qual o ditador buscava refúgio e prazer.

"O relacionamento dos dois é digno de ser investigado porque o modo como ele tratou a jovem - primeiro seduzindo, depois dominando e finalmente destruindo - reflete, no microcosmo, o modo como enfeitiçou e destruiu o povo alemão", diz a autora - Angela Lamber..

Desde pequena, Eva era teatral, engraçada e popular. "Já vivia mais em função das sensações e emoções do que do mundo racional de conhecimento e lógica", escreve Lambert. Em meados da década de 1920, Fritz Braun já se preocupava com o futuro de suas filhas. Preparar as garotas para um bom marido era de suma importância. Mas a desobediência de Eva virou um desafio. Em 1929, a adolescente de 17 anos voltou para casa depois de uma temporada em um colégio de freiras. Contra a vontade dos pais, largou os estudos, trocando-os pelos cafés, cinemas, clubes e biergartens de Munique. Seu sonho era ser atriz ou atleta profissional, qualquer coisa que lhe trouxesse fama. Mas um emprego como assistente na loja e estúdio fotográfico de Heinrich Hoffmann foi o que conseguiu. A garota passou a trabalhar para um amigo pessoal de Hitler, o fotógrafo oficial do Partido Nazista - decisão que selaria seu destino definitivamente.
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Foi ali que Eva e Adolf se conheceram. Mas o líder nazista estava às voltas com a sobrinha Geli, relação que o marcou profundamente. Para entender esse caso complicado, é preciso retroceder alguns anos. Em 1927, Hitler já era um dos líderes do Partido Nazista e as vendas de seu livro "Mein Kampf" ("Minha Luta") alcançavam os milhões. Graças a seu crescente status político e financeiro, trocou um pequeno chalé nos Alpes bávaros por uma casa de campo maior na cidade de Obersalzberg. (...) Hitler convidou sua meia-irmã Angela Raubal, que não via havia 15 anos, para ser a cozinheira e governanta da nova casa. Em julho de 1927, a filha mais velha da irmã de Hitler, Angela Maria, conhecida como Geli, se juntou à mãe.

Hitler e Geli desenvolveram uma atração mútua rapidamente, e o interesse pela jovem determinada transformou-se em paixão. Dois anos depois, Geli mudou-se para o luxuoso apartamento de Hitler em Munique, onde estudava teatro e canto. Aos amigos, Hitler não escondia seu amor, mas dizia estar apenas protegendo a sobrinha até que achasse um marido adequado para ela. Especula-se que o casal mantinha relações sexuais não convencionais - incluindo sadomasoquismo -, o que enchia Geli de vergonha. Além disso, a garota detestava o controle e o ciúme do tio. Na manhã do dia 19 de setembro de 1931, a jovem de 23 anos foi encontrada morta no chão de seu quarto. Em cima do divã, a pistola do tio. Nunca se soube exatamente o que aconteceu. Rumores davam conta de que a jovem havia sido assassinada por um namorado ciumento, pela SS (a organização paramilitar do Partido Nazista) ou por Hitler em pessoa, enraivecido por uma possível gravidez ou relacionamentos com outros homens, incluindo seu motorista Emil Maurice, com quem Geli almejava se casar. A polícia, sob pressão do Partido Nazista, encerrou o caso com uma declaração de suicídio feita por um legista.

Culpado ou não, Hitler ficou perturbado com a perda da sobrinha. Mas o fato fez com que ele passasse a olhar mais para a jovem assistente de Hoffmann, sempre em busca de sua atenção. "Hoje vemos Hitler como um monstro, mas para a maioria dos alemães da época ele era um salvador que levantaria o país após décadas de humilhação", diz Udi Greenberg, pesquisador do Centro de História Alemã da Universidade Hebraica, em Israel. Hitler também se interessou por Eva: sua devoção submissa era um alívio para as brigas que costumava enfrentar com Geli. Em dezembro de 1931, Eva visitou a casa de Hitler nos Alpes pela primeira vez. Segundo Angela Lambert, Eva provavelmente perdeu sua virgindade nessa época, embora não haja nenhuma prova de que os dois tenham mantido relações sexuais em qualquer ocasião. Há historiadores que acreditam que a relação entre os dois nunca foi carnal, mas essa crença é pura especulação.

(...) "Hitler, assim como seu séquito -Heinrich Himmler, Hermann Göring, entre outros -, suscitava paixões de mulheres que viam algo erótico e viril no poder", diz Marcelo Caixeta, psiquiatra da Universidade de Goiás. "E, além da admiração pelo 'herói', há um componente ariano de servir ao Estado nesse comportamento feminino", afirma.

Pressionada pela recriminação dos pais e pela recusa do amante em oficializar a relação, Eva passou a ver o suicídio como uma forma de ser levada a sério. Em 31 de outubro de 1932, apanhou a pistola de seu pai e atirou no próprio pescoço. Encontrada pela irmã, foi socorrida a tempo. O susto fez com que o amante passasse a lhe dar mais atenção. Mesmo depois de eleito chanceler alemão, em 1933, o Führer continuava a esconder a existência de Eva. Nesse ano, ela passou a ir com freqüência à casa de Obersalzberg, nos Alpes. Eva logo se tornaria indispensável para Hitler. Mas o amante já estava comprometido. "Hitler não se casou com Eva por razões políticas", afirma Overy.

Muitas mulheres ricas financiavam o Partido Nazista. Além disso, elas formavam grande parte do eleitorado. Hitler estava fadado a continuar solteiro, atiçando as fantasias daquelas que sonhavam em se aproximar de seu Führer. Ele era uma celebridade, atraindo centenas de fãs que se acotovelavam nos portões das residências oficiais e da Chancelaria, gritando que queriam ter um filho com ele. "Muitas mulheres eram histericamente malucas por ele, projetando em Hitler, à distância, o que quer que seja que estivesse frustrando suas vidas simples", diz Moshe Zuckermann, sociólogo e professor da Universidade de Tel-Aviv, em Israel. Mulheres anônimas e conhecidas. Magda Goebbels não escondia seus sentimentos: "Concordei em casar com o Dr. Goebbels porque isso significava que eu poderia ficar perto do Führer".
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"Imagine o privilégio de ser a escolhida por Hitler para dividir com ele sua vida. Nenhuma mulher poderia ter recusado isso - tendo em vista o que ele representava para os alemães naquela época", afirma Zuckermann. E, na época, permanecer à sombra de seu homem não deveria ferir as aspirações individuais de Eva. "Não podemos aplicar percepções feministas de hoje nas mentalidades da Alemanha nazista", diz o sociólogo. Escolhida, sim. Esposa, nem pensar. Certa vez, Traudl Junge, secretária de Hitler, perguntou ao Führer por que nunca havia se casado. "Eu não seria um bom pai de família", respondeu. "Creio que os descendentes dos gênios enfrentam muitas dificuldades. Espera-se deles o mesmo que dos antepassados famosos, e sua mediocridade não costuma ser desculpada", disse o ditador. "Essa foi a primeira manifestação da megalomania pessoal de Hitler que percebi e levei a sério", contou Junge em suas memórias, que deram origem ao já citado filme "A Queda!".

Porém, por trás da resposta de Hitler sobre a paternidade se escondia um grande trauma. O ditador era fruto de uma relação entre dois primos de segundo grau. A ocorrência de cruzamentos entre parentes próximos era comum em sua cidade de origem, e a incidência de deficiência física e mental era alta na população, tendo como uma das vítimas sua irmã Paula. Hitler temia carregar "genes ruins". Se tivesse filhos que apresentassem qualquer problema genético, cairiam por terra suas idéias sobre pureza racial.

Em julho de 1934, uma manobra legislativa entregou poder total a Hitler, transformando-o em chefe de estado e comandante supremo das forças armadas. O nazismo vivia momentos de glória. Enquanto o humor de Hitler oscilava brutalmente, Eva mostrava-se sempre alegre, escondendo seu estado de ânimo verdadeiro, que por vezes chegava à depressão severa. Mas era sua obrigação manter o ambiente leve para o amante. Em maio de 1935, porém, Eva cometeu a segunda tentativa de suicídio, ingerindo 35 pílulas de um sedativo. "Decida-se: me ame ou me deixe em paz", escreveu em seu diário naquele dia - um dos poucos trechos originais que sobreviveram à sua morte. Mais uma vez, sua irmã a encontrou a tempo. Mais uma vez, vieram à tona lembranças de Geli e o medo do escândalo. Hitler voltou a se aproximar da amante.

Eva era proibida de participar das atividades oficiais, e recolhia-se quando Hitler recebia visitas importantes. Magda Goebbels desempenhava o papel de anfitriã oficial. Apenas entre os mais próximos Eva podia exercer sua posição de dona da casa. Nessas ocasiões, Hitler costumava fazer observações depreciativas sobre o tipo de mulher ideal para estar ao lado de um homem como ele. Talvez como compensação, Hitler incentivava a amante a levar amigos e parentes para passarem temporadas no local. A prima Gertraud Weisker, entrevistada por Angela Lambert para o livro, foi uma dessas hóspedes. Entre as esposas nazistas, Eva era chamada de "die blöde Kuh", ou vaca estúpida.

Sozinha no Berghof, Eva se distraía experimentando roupas e se maquiando. Fazia longas caminhadas, banhava-se no lago, tomava sol e passava horas praticando ginástica. Via filmes e exercitava seus dotes de cineasta e fotógrafa amadora - chegou a montar uma sala escura onde revelava suas imagens. De tempos em tempos, viajava para o exterior com amigas e parentes. Quando a guerra estourou, em 1939, sua maior preocupação era a perspectiva de que as visitas de Hitler se tornariam menos freqüentes.
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(...) "Um protesto nunca passaria pela cabeça de Eva. Até porque, submetida ao anti-semitismo incansável de Hitler e de outros líderes, ela sem dúvida acreditava nele", afirma Kershaw. Para Angela Lambert, Eva não era anti-semita, apenas ignorava a política levada a cabo pelo estadista com quem dividia os lençóis. "Ela viveu o lado brando do nazismo, das festas, dos jantares, estava entre os 'eleitos'. (...) "Não acredito que ela teria conseguido mudar a história. Talvez ela tenha usado a negação para enxergar o ser amado de maneira idealizada, focando-se nos esportes e na moda para se distrair", diz Anita Clayton, professora de psiquiatria da Universidade da Virgínia (EUA).
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Com os anos, a relação de Eva e Hitler foi amadurecendo. (...) ele se preocupava quando ela estava fora do Berghof. "Se houvesse alguma notícia de ataque aéreo a Munique, ficava impaciente como um leão na jaula, esperando um telefonema de Eva", relatou Junge.
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Desses anos passados no retiro de Hitler, sobraram horas de filmes e centenas de fotos. (...) Nas imagens, se vêem belas paisagens, crianças brincando e reuniões festivas. Eva aparece se exercitando, correndo e rindo. Uma madame alienada se exibindo? De certa forma, sim. Em uma análise mais profunda, porém, podemos imaginar que ela tentava desesperadamente chamar a atenção e eternizar sua juventude, que se esvaía em dias solitários à espera de Hitler. Mas não deixa de ser desconfortável observar o ambiente luxuoso no qual vivia em plena época de privações para a população.
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A ALA FEMININA DO REICH


As outras mulheres do regime nazista

Da aviadora Hanna Reitsch à dona-de-casa exemplar Magda Goebbels, passando por artistas e as cruéis guardas dos campos de concentração, o poder e o magnetismo de Hitler atraíam a devoção das mais diferentes mulheres. Muitas não foram diretamente responsáveis pelas atrocidades cometidas pelo regime nazista contra judeus, ciganos, homossexuais e deficientes. Mas, mesmo que indiretamente, todas as mulheres dessa galeria colaboraram com o regime nazista. Porém nem todas sucumbiam ao carisma do ditador. Uma das mais famosas opositoras do regime, a atriz Marlene Dietrich nunca aceitou os convites de Josef Goebbels para que participasse de filmes produzidos com apoio do Ministério da Propaganda. "Quando Hitler subiu ao poder, fui forçada a mudar minha nacionalidade", disse Dietrich, que se naturalizou americana e cantou para os soldados das tropas aliadas durante a guerra.
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(...) Em 29 de abril de 1945, Hitler convocou Junge, para quem ditou seus testamentos pessoal e político. "Esse ato separou Hitler de sua tarefa de Führer e, assim, tornou possível para ele, psicologicamente, se separar de seu antigo 'eu'. Ele renunciou à fantasia de ser o salvador da Alemanha, sucumbindo à sua mortalidade", diz o professor Robert Gellately. Assim, Adolf finalmente reconheceu a lealdade da companheira de 14 anos. Uma cerimônia de casamento civil foi realizada em uma sala do bunker na véspera do suicídio de ambos, tendo como testemunhas Josef Goebbels e Martin Bormann, um destacado oficial nazista. A noiva usava um vestido azul-escuro de seda. Eva Braun tornou-se oficialmente Frau Hitler.

Por volta das 15 horas do dia seguinte, Hitler e sua esposa despediram-se dos colaboradores que restavam. O casal se trancou numa pequena sala. Instantes depois, o estampido de uma arma de fogo indicou que a vida do ditador chegara ao fim. Heinz Linge, criado de Hitler, e Martin Bormann recolheram os corpos - ele morto pela ingestão de cianeto de potássio seguida de um tiro na têmpora direita, ela morta apenas com o veneno, já que não queria seu rosto desfigurado - e os levaram até o pátio da Chancelaria. Cumprindo o último desejo de seu líder, incineraram os cadáveres com 900 litros de gasolina. Hitler não queria que seu corpo fosse capturado pelos soldados soviéticos. Rumores de que Eva estava grávida surgiram depois.

Eva Braun não foi a única mulher a entrar para a História como a parceira de um ditador sanguinário. Basta lembrar de personagens como Nadezhda Alliluyeva, esposa de Josef Stalin, morta por suicídio em 1932. Mas o livro de Angela Lambert mostra que nenhuma outra mulher soube mexer com o homem por trás de um tirano como Eva Braun. É por isso que o relato de sua vida deixa a incômoda percepção de que até quem é capaz de ordenar as mais terríveis atrocidades possui uma dimensão humana que muitas vezes não gostaríamos de reconhecer.

Artigo de Juliana Tiraboschi - para ler o artigo completo, clique aqui!
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